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100% dos casos de câncer tratados no complexo de hospitais Santa Casa – Porto Alegre já são registrados.

Por 14 de outubro de 2019 Nenhum Comentário

Alguns hospitais no Brasil já estão mostrando que aumentar a qualidade dos registros de casos de câncer no Brasil pode trazer uma série de benefícios, tanto para os pacientes como para a rede de saúde. Um desses exemplos é complexo de hospitais da Santa Casa de Porto Alegre que existe desde 1993. Para entender melhor o que foi feito, entrevistamos O Dr. Rafael Vargas, que assumiu o RHC em 2015.

Qual a importância dos dados disponíveis no RHC?

RF: A informação de confiança é vital para a tomada de decisão, em todos os níveis do sistema de saúde. Um RHC de qualidade permite ao hospital fazer diversos estudos epidemiológicos para conhecer melhor o público no qual o hospital presta assistência.

Quais implementações foram feitas no RHC da Santa Casa?

RF: Fizemos a modernização dos processos de identificação e registro dos casos de câncer. Fizemos diversos mutirões desde 2015 para atualizar o RHC até anos mais recentes (2017). Nós modernizamos o registro e o processo de coleta de dados, pois passamos a usar o TASY, sistema que o hospital usa para prontuários médicos, que é padrão em muitos hospitais. Temos a ficha de rastreador e a ficha de registro, que importamos direto do prontuário. Aí facilitou a coleta dos dados para o RHC. E também incorporamos o uso do sistema de business intelligence (BI), que a gestão do hospital já usava. Então foi só começar a usar para analisar os dados. Com ele a gente criou visualização dos dados através de diversos dashboards, onde mostrados os dados clínicos agregados dos pacientes oncológicos dentro do hospital. Meu sonho é colocar esses dashboards na administração para acompanhar a casuística do hospital em tempo real.

O que torna o RHC da Santa Casa diferente dos outros?

RF: Existe um esforço para aprimoramento constante. Eu sou epidemiologista também, então eu sei da importância dos dados. Acho que ter alguém responsável pelo RHC que entenda a importância e valor dos dados, faz a diferença. Outro elemento que diferencia é que este RHC sempre teve recursos humanos – sempre teve alguém que ficou responsável por fazer o serviço e não apenas isso, se especializou, treinou, para ficar cada vez melhor. O hospital tem que ter interesse em mostrar a magnitude dos casos de câncer e como eles estão sendo tratados dentro do hospital.

Como um RHC pode contribuir para a melhoria na agilidade e qualidade do tratamento de câncer?

RF: O RHC tem um impacto direto na qualidade da assistência clínica – pois te abre a possibilidade de controle interno. Por exemplo: os hospitais com perda considerável de seguimento do paciente antes dos 5 anos após o término do tratamento (mais de 10%), excluindo o óbito ou a troca de hospital, recomenda-se revisar os protocolos de seguimento, bem como avaliar o papel da equipe assistencial na fidelização do paciente à sua instituição de origem. Além disso, avaliar a sobrevida dos pacientes é outro parâmetro que pode ser usado na avaliação da qualidade assistencial. É importante saber se as taxas de sobrevida do hospital estão de acordo com a literatura mostra.

Quais os benefícios de possuir um RHC de qualidade, do ponto de vista do hospital?

RF: As vantagens: a cada 6 meses nós cruzamos os dados com o SIM (Sistema de Informação de Mortalidade) e devolve os dados com os óbitos. Então tem a vantagem que as duas bases de dados vão se qualificando – estamos melhorando tanto o RHC quanto o SIM ao fazermos este cruzamento. 

Quais são os desafios para termos RHC melhores?

RF: Primeiro conseguir sensibilizar os gestores da importância do RHC não só para a epidemiologia do câncer, mas também como uma ferramenta de autoavaliação da instituição frente aos serviços prestados no diagnóstico e tratamento do câncer. Segundo é investir na constante capacitação e aprimoramento dos registradores do câncer, pois esses profissionais são os que fazem a extração do dado do prontuário para ficha de registro. Esse processo de extração tem que ser perfeito e não pode haver perda. Logo, a capacitação é fundamental aqui. Terceiro, tem que haver uma grande campanha de conscientização da importância do preenchimento correto dos prontuários médicos. As informações dos RHC são retiradas do prontuário, se nesse faltam dados, consequentemente, o registro não será completo.

O que você acha sobre a lei 13.685 de notificação compulsória do câncer?

RF: A notificação será para o paciente entrar mais rápido no sistema. Aqui nós descobrimos que o paciente passa 70% do tempo extra hospitalar – então a regulação ambulatorial ajudaria a encurtar muito o tempo. Sobre o painel oncologia (painel lançado em maio/2019 para monitorar o tempo entre diagnóstico e início de tratamento para pacientes do SUS) ainda temos que ver como se dá o acesso a essa nova plataforma, e espero que possamos ter relatórios públicos destes dados. 

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