Imprensa

RCBP de Aracaju coleta dados de todo o estado de Sergipe para assegurar máxima qualidade

Por 4 de dezembro de 2019 Nenhum Comentário

Entrevista com Dr. Carlos Anselmo, oncologista, mastologista, coordenador do RCBP (Registro de Câncer de Base Populacional) de Aracaju-SE.

 

Como foi o surgimento do RCBP de Aracaju?

CA: Tivemos problemas de pessoal, só mais recentemente, com uma equipe estável, com registradores há bastante tempo, que conseguimos entrar em um caminho de melhoria de qualidade. Isso temos conseguido com a ajuda do INCA, do IARC (International Agency for Research on Cancer), e com o grupo de estudo da Universidade de Londres, o Concord. Através de auditoria interna e auditoria nacional e internacional, começamos a melhorar cada vez mais do nosso registro. Inclusive, participamos de estudos internacionais de incidência. Além de participarmos destes grupos, também temos pesquisa de mestrado e doutorado, junto a Universidade daqui e junto ao INCA. A nossa meta é a qualidade do dado.

E hoje em dia, como você qualificaria a qualidade do dado do RCBP de Aracaju?

CA: Não é feito por nós, mas a análise feita pela IARC, e é considerado de qualidade.

E a cobertura do RCBP, é estadual?

CA: Não é estadual, a política no brasil começou com o registro de câncer em municípios. Então a área de consolidação é o município de Aracaju. No entanto, coletamos dados de todo o estado. Para ter certeza que estamos pegando mesmo todos os casos.

Então o RCBP calcula incidência somente da população de Aracaju, mas coleta dados de todo o estado?

CA: Isso. E você pode perguntar: “E por que não calcular o estado inteiro?” Porque isso precisaria de um tempo adicional muito grande. A gente coleta do estado como um todo, mas identificando apenas os casos procedentes de Aracaju. Para ir de encontro a meta, estabelecida pelo Ministério da Saúde. A gente só precisa trabalhar o dado de Aracaju para a consolidação. No futuro, isso até é possível, passar para todo o estado, mas precisamos de mais tempo ou mais pessoal. A nossa equipe não daria conta para todo o estado – aumentaria muito o tempo para fechar os dados de cada ano.

Fale um pouco sobre o papel do INCA para auxiliar vocês a construir um RCBP de qualidade?

CA: O INCA foi essencial, faz treinamento constantemente, faz o tratamento e finalização dos dados, quando existe problema dos dados eles retornam para alinhar determinados pontos. Eles também são responsáveis pela coordenação dos estudos internacionais, no preparo dos bancos de dados para envio a IARC e a Universidade de Londres.

Onde e quem compõe o RCBP?

CA: Ele é um órgão da SES-SE, mas a base dele é na UNACOM do Hospital de Urgências de Sergipe. Ele estando baseado lá, tem acesso direto aos dados e contato com o RHC. Além do que, eu sou oncologista que trabalho nessa UNACOM, então o contato comigo é frequente. Temos quatro registradores e um coordenador. Como utilizamos os dados de todos os RHC do estado, considero que a equipe do RCBP é composta destes registradores mas todos os outros RHC. Eu considero como uma única equipe, já que estamos trabalhando pelo mesmo objetivo.

Por que o RCBP é importante? Qual a importância dos dados que ele coleta?

CA: Você não define e não avalia tratamento, sem mensurar o impacto daquela doença na população. Então o registro faz isso: ele calcula incidência e também mortalidade. Existem métodos matemáticos que nos permitem extrapolar os dados e fazer estimativas para as populações próximas. Localmente, nós fazemos as estimativas de Sergipe e das estimativas das regiões de saúde, coisa que o INCA não faz. Apresentamos os dados em reuniões com as secretarias municipais de saúde. Então, conhecer o dado ajuda na definição das políticas de saúde, para tratamento do câncer, de rastreamento, para entender a real problemática.

Então se a gente observar que a incidência precisa de décadas para mudar, registros de câncer trabalhando adequadamente, eles podem contribuir para o entendimento do impacto de câncer na população e estimativas para o futuro.

Como se dá essa interação entre RCBP e as secretarias? Como vocês transformam estes dados em inteligência e evidencia para políticas públicas?

CA: Aqui a gente tem reuniões periódicas, confeccionamos as estimativas de câncer, apresentamos, e discutimos com os secretários. Participamos de reuniões e conferencias com os gestores municipais. Mas políticas públicas de saúde dependem também das políticas nacionais.

A incidência e prevalência são importantíssimas, porém pela natureza da doença, não vemos mudanças drásticas nestas variáveis ano a ano. Mas podemos usar o RCBP para avaliar estadiamento e qualidade de tratamento? 

CA: Estadiamento não era uma variável que o RCBP registrava, mas estamos começando a implementar aqui, para melhorar as participações internacionais. Hoje em dia estamos trabalhando a inserção do estadiamento. Já começamos estadiamento do câncer infantil também.

E quando você diz a inserção da variável no software. Isso ainda não existe?

CA: O campo que existe atualmente é se ele é localizado, se é regional ou distância. A partir de agora, já estamos trabalhando com o campo especifico de estadiamento. O estadiamento essencial.

Os níveis I, II III e IV?

CA: Isso.

E esse estadiamento, do ponto de vista prático, é difícil de capturar esses dados?

CA: É que precisa de um tratamento adicional do registrador, pois nem sempre o médico coloca o estadiamento correto e aí ele (o registrador) tem que passar mais tempo analisando o prontuário para ele identificar de acordo com os passos que estão sendo sugeridos, para que ele possa ser completado. Como o coordenador aqui é médico, ele pode verificar se é correto. Vai precisar de mais tempo e mais trabalho do coordenador, mas isso são coisas que vamos melhorar.

Se você pudesse inspirar outros registros a melhorar a qualidade, o que você diria? Como fazer para atingir a excelência?

CA: A nossa equipe é estável, ela participa de todas as etapas para a qualidade de dados, ela usa um programa da IARC, IARC tools, antes de fechar os dados, ela faz o controle de qualidade. Outro fator importante são os registradores treinados, envolvidos no registro em mais tempo. No resto do Brasil não é assim, os registradores mudam muito, não tem vínculo com a instituição, e ser treinado para registro de câncer exige tempo, para que ele possa trabalhar o dado adequadamente. Em muitos estados isso não é mantido, com mudança de coordenadores, isso dificulta muito a qualidade do dado. Talvez a gente tenha escolhido uma equipe, por sorte, que hoje é permanente, gosta, e é constantemente treinado, verificado, tenta levar para as reuniões da ABRC, onde tem treinamento. Mais do que qualquer coisa, nós mantemos a equipe atualizada e capacitada. Nós temos um registrador que é conhecido no Brasil inteiro, já foi ajudar em outros estados.

O que você acha sobre o PL da profissão de registrador?

CA: Esse projeto é uma iniciativa da ABRC, da qual eu faco parte. É exatamente uma tentativa de ter a profissão para que possa ter um mínimo de padrões para o cargo, salários, etc. Outra coisa que você mencionou foi a notificação compulsória.

O que você acha dessa lei?

CA: No nosso caso, ela não terá impacto nenhum, pois nós já contamos com todas as fontes possíveis – todos os laboratórios privados e públicos, todos eles, estão como fontes, não temos problemas com isso. Eu ainda não vejo a notificação como uma coisa que vá beneficiar o registro de câncer, pois os diagnósticos de câncer – quem vai trabalhar para ver se aquele da notificação é o mesmo que teve o diagnostico no registro. Pode ser que facilite em locais que se tem dificuldade de registrar o dado. Tem laboratórios que não disponibilizam os dados, e daí a completude fica comprometida.

Também, para onde e quem deve notificar o dado, a lei não diz isso. Então eu vou mandar, para quem? Não basta simplesmente existir, ela precisa ser trabalhada.

Estamos de acordo. A lei não especifica, e para isso precisamos regulamentar, com um decreto, que estabeleça “quem, como, quando”.

CA: A notificação deve ser feita por registros – de que forma? Deve ser bem estabelecida, para que seja um dado completo, que vá ajudar os registros e não piorar a situação, isso deve ser muito bem discutido na regulamentação.

Deixe um Comentário