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RCBP de João Pessoa (PB) demonstra a determinada evolução dos dados epidemiológicos no Brasil

Por 4 de dezembro de 2019 Nenhum Comentário

Entrevista com a Sra. Josefa Angela de Aquino, coordenadora do RCBP (Registro de Câncer de Base Populacional) de João Pessoa-PB.

Quais são os desafios que o RCBP está enfrentando agora?

JAA: Exigência do ministério para fechar o banco em dois anos, tem o positivo e negativo, por outro lado fica difícil pra gente ter acesso com mais facilidade a esses dados. Não é só o câncer, você tem o câncer, morfologia, endereço, e existe a rotina de fechamento do banco, que eu consigo vincular, é um trabalho que precisa… precisa olhar ficha por ficha, individuo por individuo, as etapas de validação, esse aprofundamento demora, em todas as fontes. E tem fontes que facilitam os dados, e tem outros a gente tem que acessar via manual, uma pessoa para ir lá para resgatar as fichas,

Porém o meu registrador vai de manhã, e eles pedem: “não, venha de tarde”, e as vezes atrasa, como é o meu hospital, que é o maior o (Hospital) Laureano, a quantidade que eles separam, as vezes é menor, então temos que ir várias vezes, para resgatar estes dados.

Quando você fala as fontes, você fala ir nas unidades, vocês vão em todos os hospitais? Então vocês não usam os dados diretos do RHC, para colocar no RCBP?

JAA: O RHC a gente usa, mas o Laureano não fechou, eu não posso resgatar os meus dados do Laureano, se eles estão fechando 2016 e ele ainda não está no integrador, o tempo não é o mesmo, nem o RHC nem do RCBP, e os outros casos que não são nem CACON nem UNACON, tem serviço paliativo, e a gente resgata também. E também tem os hospitais, a minha equipe vai lá e resgata. Além dos hospitais tem os laboratórios, são 42, 43 laboratórios. O hospital de fato tem cerca de 20% dos meus dados, só que o acesso para fechar os anos, porque a equipe vai lá pra resgatar diretamente.

Agora a cobertura é de quase 90%.

JAA: Isso.

E a qualidade dos dados IARC na Paraíba?

JAA: A nossa qualidade tá dentro dos parâmetros, é o trabalho de formiguinha… A gente sempre faz o trabalho de cruzar os dados. Tanto para o registro de câncer quanto para o SIM. Que a gente qualifica os dois. Temos aprimorado.

Vocês vêm aprimorando, nos últimos quase 20 anos que o RCBP foi instalado, como você vê a evolução?

JAA: Não foi rápido (risos). À medida que passa os anos, a gente vê a transição epidemiológica e a gente vai aprimorando a qualidade da informação… a ficha do RCBP é muito enxuta, direcionada para incidência, então não tem como analisar tudo, por exemplo o câncer de mama, que tem vários determinantes, essa ficha não captura isso. Uma ficha muito adequada para incidência, e tem que ter uma equipe envolvida. À medida que via pra complementar a informação, até para endereço, mesmo. Pois as vezes a área geográfica é fora da capital.

E em relação ao uso dos dados para guiar políticas públicas – como você vê a situação?

JAA: Olha, eu acho que os registros, RHC e RCBP são ferramentas importantíssimas. Quando eu falo a incidência, ele reflete o estado – se você tem o câncer de mama, a incidência aqui saiu em quinto lugar câncer de boca, então essa informação, como a gente passa isso para a população, para eles terem uma sobrevida maior. Uma melhor qualidade de vida.

E você sente vê o processo de esse dado se transformar em informação útil e eventualmente virar política pública ou ser incorporado no planejamento, como funciona? Fazem relatórios, reuniões com a equipe da Secretaria?

JAA: Aqui no Estado, todo o final de ano, no dia 27 de novembro, há 10 anos ou mais, convido a todos, faço uma reunião, faço a qualidade, o que precisa melhorar da qualidade da informação e outras variáveis, e aqui dentro da secretaria, a própria secretaria de assistência nos procura para dar informações.

O INCA também sempre pede, eles solicitam de todos os registros, que foram solicitadas para trabalho, mas a gente não tem o feedback

A gente também já fez artigo cientifico. Nós não temos boletim, nossa equipe é pequena, não são do quadro, para divulgação, que é nosso próximo passo, a não ser trabalhos para a IARC – na Arequipa, pela IARC, e aqui com relação a outros trabalhos dentro do próprio estado. Não tem divulgação palpável. A gente tem essa precariedade, ela é ainda muito incipiente.

Porque, a parte politica interfere muito, minha equipe não é só do registro. Eu tenho o meu básico de sanitarista mas não tenho aprofundamento nem tempo para fazer isso. É preciso ser feito nesse sentido para toda a equipe – do núcleo de doenças não transmissíveis, minha equipe pára, como tem nível técnico, são enfermeiras, a gente tem essas particularidades. Não interfere tanto no trabalho, mas o tempo diminui para fechar uma base de dados por exemplo.

Eu tinha uma dúvida sobre estadiamento: o RCBP já incorporou na ficha?

JAA: Na ficha tem e é como se fosse optativa. Aí em João Pessoa não capturamos.

Me explica o processo?

JAA: Nem o próprio RHC, eu acho que o de Aracaju, além dele ser médico, ele tem acesso ao próprio hospital de lá e isso qualifica (o dado). Aqui a gente tem feito as nossas reuniões o estadiamento não é descrito no prontuário, e decidimos não coletar – sabemos da importância, para analise de sobrevida, a gente fala das reuniões e a gente não faz ainda.

Como você vê o futuro do RCBP, daqui cinco ou dez anos, como gostaria de estar?

JAA: Um sonho de consumo é fazer calculo e estudo de sobrevida, e que os registros sejam vistos como ferramentas importantes para as politicas de câncer, pois não são vistos atualmente assim. Nem pelo ministério. O INCA sim apoia, mas eu sinto uma falta do ministério em relação a registro. O INCA é outra história, a gente tem toda a tecnologia, apoio, treinamento, formação, especialistas, mas o ministério não tem uma área restrita para trabalhar o registro, tem a DANPTS mas não tem direcionamento, só tem cobrança – cobrar os dados no tempo que eles querem.

Inclusive: o sistema de informação é uma fonte riquíssima de informação, mas só fecha com dois anos. Como vou trabalhar 2018, se ainda não fechou a base? Então dificulta o trabalho de fechamento da base de dados. Eu estou fechando 2016 – coletar a gente coleta, mas não é só coletar, ver o que tem numa e noutra, pra qualificar. Tem muitos sistemas e fontes que nós temos que cruzar.

O que você pensa sobre a lei 13.685, de notificação compulsória do câncer?

JAA: Pro câncer é difícil. Por que notificamos compulsoriamente? Para ter ações de resolver naquele momento, imediatas. Por exemplo influenza, zika, que causa microcefalia… aí você tem que ter a notificação compulsória imediatamente, como a gente teve aqui no estado uns casos de malária…são coisas que tem que ter ação imediata. Câncer não, câncer eu vou num canto, vou noutro, faço tratamento aqui, tratamento acolá, então… eu acho que os próprios registros serviriam para dar essa base… Nesta doença não há mudança significativa nos dados no decorrer dos anos, certo? Pois o que se precisa fazer são promoções para detecção precoce. Não é como influenza, como malária, isso é minha opinião pessoal… Se for do câncer, o que a gente vai fazer? No câncer não precisa disso, não há mudança significativa, os dados permanecem estáveis, eu acho que é uma coisa que não vai ter valor significativo para a política pública. A gente já tem os registros. Os 60 dias já outra coisa, que já tem o painel oncologia, e isso é assistência. Como foi o caso do meu câncer, eu detectei nos meus exames de rotina… olha, eu tive um câncer, qual é a ação que virá depois disso? É ação assistencial, não é uma meningite que eu preciso fazer uma ação direta na comunidade imediatamente.

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